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O paulistano Marcel Visconde é especialista em marketing e fez cursos de liderança e gerenciamento de executivos. Atuou nas áreas Comercial, de Vendas e de Novos Negócios e foi vice-presidente de marketing do laboratório farmacêutico Biosintética. Em 2002, assumiu a diretoria da Stuttgart Sportcar e, desde 2006, é presidente da importadora oficial da Porsche no Brasil. Também é piloto de competições. Ao lado de nomes como Raul Boesel e Max Wilson, já venceu as 500 Milhas Brasil e os 500 km de Interlagos, claro, a bordo de um Porsche.

17/02/2010


IMPORTADOS


Porsche quer crescer 12% no Brasil em 2010



Mercado nacional supera o mexicano e já é

o maior da montadora alemã na América Latina

Por Wagner Belmonte e Beno Suckeveris

Num ano em que a economia brasileira deve crescer até 5%, a Porsche prevê um salto de 12% nos negócios no País. O bom resultado de 2009, quando o mercado brasileiro atenuou os efeitos da crise financeira internacional, motiva investimentos de R$ 10 milhões na abertura de duas novas concessionárias, nas regiões Centro-Oeste e Norte. Cada uma delas deve gerar 20 empregos. A expectativa é vender 620 carros neste ano, volume que, se confirmado, será 12% maior do que as 553 unidades comercializadas em 2009. No entanto, o que a empresa que importa os veículos para o Brasil, a Stuttgart Sportcar, quer mesmo é recuperar o nível de vendas de 2008, “ano considerado um ponto fora da curva”, segundo o presidente Marcel Visconde. No ano em que chegou ao Brasil, em pleno regime militar (1968), a Porsche vendeu apenas cinco unidades, mas já naquela época era símbolo de esportividade, tecnologia de ponta sobre rodas e status.

A compra de um Porsche, explica Visconde, ocorre muito mais por impulso do que pela razão. “Nosso consumidor é um apaixonado pelo carro, pela marca”, orgulha-se. Segundo ele, isso cria um “desafio” constante a quem representa uma empresa com esse grau de sofisticação: “Como o comprador de um carro assim é muito bem informado, muitas vezes, ele ‘dá um nó’ no vendedor”, diz. Visconde afirma também que um dos meios fundamentais para que a empresa possa crescer é o treinamento. “Ele é o oxigênio, um valor da nossa companhia”, argumenta.

500 CV – É quase impossível não prestar atenção num objeto de desejo de milhares de fãs da velocidade. Cor branca, rodas de alumínio com detalhes em vermelho e o inconfundível logotipo que leva um cavalo preto, empinado, o símbolo da cidade de Stuttgart estampado no capô.  O carro virou atração, mesmo estacionado em frente à recepção de um flat, no Itaim, na zona sul de São Paulo. Não é todo dia que se vê um Porsche Panamera, o primeiro superesportivo que a marca alemã fabrica com quatro portas e que será uma das grandes atrações do Salão Internacional do Automóvel deste ano, na capital paulista.

Equipado com motores V6 e V8 – 4.8 litros de 400 a 500 cavalos, tração traseira, embreagem dupla, suspensão a ar com pressão ajustável em cada mola, aerofólio traseiro que se move automaticamente de acordo com as características aerodinâmicas, o Panamera é oferecido em três versões. Segundo a Porsche, a versão S, vendida no Brasil a partir de R$ 549 mil, acelera de 0 a 100km/h em 5,4 segundos. A velocidade máxima pode chegar a 283 km/h (câmbio automático) e a 285 km/h (manual). Surpreende também pela economia de combustível para um superesportivo: 9,2 km por litro. O Panamera 4S tem números semelhantes: acelera de 0 a 100 km/h em apenas 5 segundos. Atinge 282 km/h de velocidade máxima e consome 9 km por litro de combustível. O preço? R$ 599 mil. A versão bi-turbo, top de linha, aumenta a potência do motor para 500 cavalos. Faz de 0 a 100 km/h em impressionantes 4,2 segundos. A velocidade máxima é de 303 km/h, e o consumo, mais alto: 8,1 km/l. É vendido por R$ 749 mil, o equivalente a 34 Uno Mille, o carro mais barato do País, ou a 1.468 salários mínimos.  

Fabricado em Leipzig, na Alemanha, o Panamera foi lançado mundialmente no ano passado, na China. Sucesso imediato, foi premiado como Melhor Carro de 2009 em Performance de Luxo, pela revista alemã Auto Bild. A Porsche prepara ainda a versão híbrida, com motor elétrico e a gasolina.

As primeiras unidades que chegaram ao Brasil começaram a ser entregues em dezembro de 2009. A encontrada em São Paulo estava justamente com Marcel Visconde, importador oficial da Porsche. 

História – A marca que ostenta o brasão do estado de Baden-Württenberg, onde fica Stuttgart, sede da empresa, e o cavalo preto empinado, que antigamente era utilizado nos uniformes do exército local, está diretamente ligada à história do automóvel.

Há 110 anos, em 1900, o carro elétrico Lohner-Porsche, com o eixo de roda inventado pelo engenheiro e piloto de testes Ferdinand Porsche, foi apresentado na Exposição Mundial de Paris. Em 1928, como diretor técnico da Daimler, ele desenvolveu os Mercedes SS e SSK. Três anos depois, fundou a Porsche Engineering, em Sttugart, base da fábrica de hoje.

Em 1933, Porsche lançou o Type 32, antecessor de um dos carros mais vendidos da história do automóvel, o Fusca, que, por causa da 2a Guerra Mundial, só entrou na linha de montagem da Volkswagen, em Wolfsburg, em 1946.

Sob a direção do filho do engenheiro, Ferdinand (Ferry) Porsche Júnior, a empresa, que durante a guerra havia se mudado para Gmund, na Áustria, criou o esportivo Cisitalia, com partes fornecidas pela Volkswagen, em 1947. No ano seguinte, mais precisamente em junho, Ferry fundou a Porsche e apresentou o primeiro roadster da marca, já em Stuttgart novamente. Ele disse que, como não encontrava o carro dos seus sonhos, decidiu construí-lo.

Mito – A fama correu o mundo. Em mais de 60 anos, foram vendidas mais de 100 mil unidades, algumas delas se popularizaram também com a fabricação de réplicas. Um de seus mais célebres fãs, o ator americano James Dean, pilotava um Porsche 550 Spyder, quando morreu num acidente, em 1955, na Califórnia.

A Porsche sempre investiu em automobilismo, com um histórico de vitórias nos Mundiais de Marcas e Endurance (corridas de longa duração) e em provas lendárias como as disputadas em Daytona e Sebring (EUA) e em Le Mans (França). No Brasil, promove campeonatos, festivais e o Porsche Club, que reúne cerca de 1.500 associados e é o maior da América Latina.

Crise – Em 2008, a Porsche ampliou a participação na Volkswagen, de 31% para mais de 50% das ações, e passou a ser a maior fabricante de veículos da Europa. Porém, não resistiu aos efeitos da crise financeira internacional iniciada no final daquele ano. Convém lembrar que a economia alemã, a quarta do mundo, entrou formalmente em recessão.

Sem fôlego para bancar a dívida assumida com a compra das ações, devolveu o controle majoritário para a Volkswagen. As duas empresas, cujos presidentes são primos, permanecem com administrações autônomas. De acordo com Visconde, o acordo de agosto de 2009 não afetou as operações brasileiras. 

Perfil – O paulistano Marcel Visconde é especialista em marketing e fez cursos de liderança e gerenciamento de executivos. Atuou nas áreas Comercial, de Vendas e de Novos Negócios e foi vice-presidente de marketing do laboratório farmacêutico Biosintética. Em 2002, assumiu a diretoria da Stuttgart Sportcar e, desde 2006, é presidente da importadora oficial da Porsche no Brasil. Também é piloto de competições. Ao lado de nomes como Raul Boesel e Max Wilson, já venceu as 500 Milhas Brasil e os 500 km de Interlagos, claro, a bordo de um Porsche. 

Ricardo Xavier Recursos Humanos – Com o câmbio atual, é possível trazer um Porsche por um preço mais competitivo?

Marcel Visconde – O câmbio de 2008 é, basicamente, o mesmo de hoje. O grande problema ocorre quando há uma queda brusca, por exemplo, de R$ 2,30 para R$ 1,60 na cotação do dólar. Ou seja, uma depreciação de 20% a 30% da moeda norte-americana num curto espaço de tempo. O efeito geral de um câmbio estável nas corporações é que ele permite à empresa enxergar a possibilidade de investimento, o que ela pode incorporar ao portifólio, à rede de concessionárias e afins.     

Ricardo Xavier RH – Qual o impacto da depreciação do dólar nas importações?

Visconde – É impossível saber. Varia muito de marca para marca. Em 2009, o efeito do câmbio sobre os negócios da Porsche foi zero. O nosso comprador não gosta de oscilações bruscas. Se ele sente essa instabilidade, pensa duas vezes se vale a pena arriscar ou se o melhor é fazer investimentos. Há outras prioridades para o empresário ou pessoas neste nível. Com o câmbio estável, ele sai para consumir, estimulado pelo cenário macroeconômico como um todo. Para o nosso comprador, o câmbio oscilando de R$1,70 a R$ 2,00 não traz grandes efeitos. A questão passa a ser mais sensível quando a moeda norte-americana vai de R$ 1,70  a R$ 2,20 em apenas quatro meses. Quando isso acontece, ele deixa de fechar negócio, porque ele é também comprador de insumos e de matérias-primas importados. O efeito do câmbio, para os nossos negócios, é importante, mas não é decisório. No primeiro quadrimestre de 2009 e no último bimestre de 2008, fomos a empresa que mais sofreu com oscilações do câmbio, porque nosso produto é basicamente adquirido por impulso de consumo, muito mais pela emoção do que pela razão. As pessoas não têm uma razão, mas sim o desejo de comprar um Porsche. Quem tinha vontade de comprar um Porsche com o mundo virando de cabeça para baixo em dezembro de 2008? Eu não tinha vontade de sair da casa para trabalhar, mas tinha de trabalhar.

Ricardo Xavier RH – Quantos carros da marca foram vendidos em 2009?

Visconde – Foram 553 carros. Em 2008, foram 720.A nossa expectativa para 2010 é de vender 620 unidades.

Ricardo Xavier RH – Qual o motivo pelo qual a Porsche não conseguirá recuperar o volume de vendas de 2008?

Visconde – O ano de 2008 foi um ponto fora da curva. Houve uma somatória de otimismo. O cenário macroeconômico esteve bastante favorável, embora nem os economistas tivessem previsto o que aconteceu. Tudo aquilo que os economistas falaram que iria acontecer não aconteceu. Houve também um desejo muito grande de consumo, principalmente porque a marca estava num momento igualmente positivo em função dos lançamentos, da tecnologia e com a Cayenne indo muito bem...

Ricardo Xavier RH – Para este ano de 2010, há planos de investimentos no Brasil?

Visconde – São os importadores que investem no Brasil. Teremos investimentos importantes em aumento da rede (de concessionários) no segundo semestre. Não tenho os números, mas posso afirmar que serão mais duas revendas. Atualmente, temos seis (duas na cidade de São Paulo, uma em Ribeirão Preto, uma no Rio de Janeiro, uma em Porto Alegre e outra em Curitiba). Nossa meta é chegar a oito concessionárias.  

Ricardo Xavier RH – Quais os locais em que essas revendas devem ser instaladas?

Visconde – O Estado de São Paulo e o Sul do País já estão supridos. Precisamos chegar ao Centro-Oeste e avançar para cima, para a Região Norte.

Ricardo Xavier RH – Quanto se gasta para abrir uma concessionária Porsche?

Visconde – Um bom dinheiro; os padrões são sempre muito altos.  Acredito que o investimento chegue a R$ 5 milhões por concessionária.

Ricardo Xavier RH – Quantos empregos serão gerados?

Visconde – Cerca de 20 por revenda. Quando abrimos um novo mercado, geralmente, todo o suporte de pós-venda vai junto. É preciso abrir uma concessionária com atendimento voltado a vendas e mecânica.

Ricardo Xavier RH – Os carros da Porsche são altamente sofisticados. Eles se tornaram sinônimos de status, mas também de tecnologia e são bastante requintados. Como é o processo de treinamento para o atendimento a um consumidor que tenha esse parâmetro de exigência?

Visconde – Todas as nossas ações de treinamento são feitas aqui na matriz, em São Paulo. A base de conhecimento que o nosso vendedor tem é um grande valor da empresa.

Ricardo Xavier RH – O que diferencia um vendedor de carros Porsche?

Visconde – Ele tem de ser diferente, porque o nível de expectativa de um comprador de Porsche é extremamente alto. Muitas vezes, o consumidor “dá um nó” em nosso vendedor por ser muito bem informado. É um apaixonado pela marca; ele reúne informações. O nosso desafio é manter os vendedores altamente treinados para suprir com eficiência as expectativas dos nossos clientes, que são meticulosos e detalhistas. Por isso, o treinamento é muito importante; é o oxigênio da nossa companhia.

Ricardo Xavier RH – O treinamento está alinhado a uma diretriz global da matriz em relação a recursos humanos?

Visconde – Sem dúvida. A Porsche estabelece um padrão mundial. Do ponto de vista de treinamento, ela possui ferramentas de internet bastante avançadas. Temos plataformas de e-learning, com as quais é possível obter um raio-x de todos os carros, de todos os componentes, saber como eles funcionam, os benefícios e assim por diante... É possível até mesmo fazer um raio-x da  concorrência. Esse é um guideline da Porsche global.

Ricardo Xavier RH – Qual o potencial de mercado da Porsche no Brasil?

Visconde – Esse segmento responde por de 0,5% a 0,8% de todas as vendas do País. No segmento em que atuamos, os nossos números já são importantes. Agredimos bastante o mercado.

Ricardo Xavier RH – A Cayenne é o modelo Porsche mais vendido no Brasil. Como está a disputa no nicho de utilitários esportivos de luxo, em especial com a BMW X5? 

Visconde – Nessa classe SUV (Sport Utility Vehicle), na qual se tem concorrentes, você pode ter um Porsche com um valor um pouco mais alto do que a Mercedes ou a BMW. O consumidor interessado até aceita isso, porque é um Porsche. Mas a gente não pode “desgrudar” muito desse delta de mercado. Se isso ocorrer, enfrentaremos redução no volume de vendas. Nossa venda decorre muito mais da penetração comercial e da excelência na qualidade dos nossos carros. São veículos que se adaptaram muito bem às nossas condições de rodagem. É um carro bastante robusto, que, felizmente, deu certo.

 



   

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